JRPG: será que os clássicos RPGs japoneses estão em extinção?

Em 2020, o lendário JRPG Final Fantasy VII ganhou uma linda versão remake, mas, apesar de ter sido um grande sucesso, o novo jogo foi criticado (pelos mais saudosistas) por alterar certos aspectos importantes do game original.

A intenção dos desenvolvedores, claro, foi adaptar uma aventura da década de 1990 aos padrões dos jogos atuais. Porém, isso acabou incitando muitas discussões acerca das mudanças sofridas pelos RPGs japoneses ao longo dos anos. Aliás, até mesmo uma teoria de “ocidentalização dos JRPGs” surgiu.

Como fã dos clássicos RPGs japoneses, resolvei criar este post para falar um pouco mais sobre esse assunto. Isto é, ao longo deste texto, apresentarei os aspectos que definem um JRPG, alguns exemplos clássicos e as minhas impressões acerca da evolução dos jogos desse tipo. Então, não deixe de conferir, ok?

O que define um JRPG?

Se formos avaliar a sigla JRPG apenas por suas letras, teríamos a definição Japanese Role-Playing Game, ou seja, de modo simplificado, RPG Japonês.

Todavia, por conta da “era de ouro dos RPGs japoneses”, que aconteceu na década de 1990, o termo JRPG transcendeu o significado literal e passou a ser aplicado na definição de jogos que apresentam características bem peculiares.

Isso quer dizer, que um JPRG não é simplesmente um jogo de RPG desenvolvido no Japão, mas sim, um jogo de RPG que segue algumas diretrizes e apresenta aspectos importantes, como uma grande narrativa, um sistema de combates por turnos, muita exploração, resolução de puzzles, batalhas desafiadoras, etc.

Logicamente, nem mesmo na “era de ouro” os RPGs japoneses eram todos iguais. Alguns títulos exibiam mecânicas diferenciadas, mas, em essência, não era preciso pensar muito para distinguir um JRPG de um RPG Ocidental.

Hoje em dia, a tarefa já fica um pouco mais complicada e, geralmente, o termo JRPG acaba sendo aplicado aos games que remetem aos grandes jogos de RPG da história ou aos títulos que são criados no Japão.

De qualquer forma, para deixar ainda mais claro o conceito de JRPG, separei abaixo cinco títulos lendários que resumem todas as ideias de uma forma inquestionável.

JRPG: um resumo com Cinco Exemplos

Agora que já falamos sobre os conceitos por trás de um bom JRPG, podemos fortalecer um pouco mais as ideias com a utilização de alguns grandes exemplos do gênero. Acompanhe…

Chrono Trigger

JRPG

Lançado originalmente para o Super Nintendo, em 1995, Chrono Trigger continua sendo um dos jogos mais aclamados de toda a história dos games. Com sua bela história e a atrativa ideia de viajar no tempo, o jogo conseguiu conquistar uma legião de fãs e acabou abrindo as portas para os JRPGs que vieram após ele.

Em suas construções, Chrono Trigger exibe um visual inspirado nos animes japoneses (desenhos de Akira Toiyama), um sistema de combates baseado em turnos (com habilidades e magias especiais) e diálogos impecáveis, que “puxam” o player para dentro da história. Sem dúvidas, uma lenda!

Xenogears

JRPG

Apesar de o seu processo de desenvolvimento ter sido marcado por muitos problemas, Xenogears, de 1998, ainda é um dos maiores exemplos quando falamos de RPGs japoneses. O game apresenta uma premissa que envolve mechas gigantes e uma trama que abarca conceitos bem maduros.

Como o grande exemplo que é, Xenogears apresenta um sistema de combates em turnos (com direito a muitos combos), dungeons enormes (para favorecer a exploração) e, claro, muitos diálogos. Na verdade, aqueles que param para observar o enredo desse clássico com cuidado acabam ficando perplexos com a grande complexidade dos assuntos. Grande jogo!

Dragon Quest

Juntamente com Final Fantasy e Tales of (que sempre foi uma opção diferenciada), Dragon Quest complementa o grande trio dos JRPGs. A franquia teve o seu primeiro game lançado 1986 e foi uma das grandes precursoras do gênero, servindo como influência para muitos games que vieram na sequência.

Apesar de ter passado por algumas reformulações ao longo dos anos, os primeiros jogos da franquia Dragon Quest focavam em uma experiência realmente “Role-Play”. Os players eram colocados no papel de heróis e deviam superar muitos desafios. Enfim, esse pode ser um bom ponto de partida para quem deseja entender a essência dos RPGs japoneses.

Breath of Fire

Falemos agora de uma franquia clássica que não recebe um novo título desde 2002 (o título de 2016 foi cancelado), ou seja, Breath of Fire. Minha intenção, ao citar a série da Capcom, foi chamar a atenção para um problema: certos fãs são muito resistentes à mudança.

Nesse caso, estou me referindo ao controverso Breath of Fire: Dragon Quarter, que foi o último título da série e, por promover mudanças em um padrão que havia sido repetido nos quatro jogos anteriores, acabou sendo duramente criticado. Hoje, os fãs da franquia sonham com seu retorno, mas um remake pode acabar não sendo bem recebido (o saudosismo é perigoso!).

Final Fantasy

Para fechar a minha rodada de exemplos, temos a franquia Final Fantasy. Bem, em relação a essa série não há muito a ser dito. Desde 1987, os títulos lançados conseguiram promover aventuras memoráveis, que acabaram estabelecendo o padrão que, mais tarde, viria a ser conhecido como JRPG.

A franquia conta com histórias impecáveis, mas ainda tem Final Fantasy VII como o seu título mais importante. Não à toa, o game está sendo refeito para dar à nova geração de players uma oportunidade para acompanhar a incrível história de Cloud e seus amigos.

As diferenças entre um RPG Ocidental e um JRPG

Observando com cuidado todos os exemplos apresentados acima, fica bem fácil visualizar os aspectos que definem um JRPG. Na realidade, por meio dessa observação, diferenciar os RPGs japoneses dos RPGs ocidentais também não fica nada complicado.

Por exemplo, colocando um grande RPG Ocidental, como Diablo, diante de um título da franquia Dragon Quest fica fácil perceber como “as duas escolas” funcionam.

Jogos de RPG ocidentais costumam apresentar um gameplay mais voltado para a ação, com sistemas de combate que “emprestam” muitos elementos de outros gêneros. Além do mais, o estilo artístico é diferente e as narrativas costumam ter menos diálogos.

No fim de tudo, são alguns detalhes que separam os RPG Ocidentais dos RPGs Japoneses, mas esses detalhes fazem toda a diferença para quem está acostumado com um dos dois tipos.

E isso explica por que certos jogos de RPG ocidentais são marcados, pelos próprios desenvolvedores, com a “tag” JRPG. Nesse caso, a intenção é mostrar que o referido RPG segue o padrão de clássicos da “era de ouro”.

No caso contrário, quando um RPG japonês foge ao formato clássico, temos aquilo que alguns têm chamado de “Ocidentalização dos JRPGs”. E é sobre esse tema que eu falo logo abaixo…

Existe um Processo de “Ocidentalização” dos JRPGs?

Conforme eu apontei na seção anterior, quando um RPG japonês apresenta construções típicas de RPGs Ocidentais, temos a chamada “ocidentalização dos JRPGs”.

Essa teoria ganhou força nos últimos anos, após diversos RPGs de origem japonesa terem apresentado gameplays mais voltados para o lado da ação, deixando para trás alguns dos padrões definidores da “era de ouro dos RPGs”.

E sim, como fã de jogos de RPG posso confirmar que os “RPGs à moda antiga” têm se tornado cada vez mais raros nos dias de hoje. Contudo, eu não diria que se trata de um caso de “ocidentalização”.

Na minha visão, as mudanças que marcaram os JRPGs nos últimos anos são apenas um reflexo da evolução dos games. Como eu sempre digo, a nostalgia é muito boa, mas não podemos ficar sempre presos ao passado.

O caso Final Fantasy VII Remake

Usando o caso Final Fantasy VII Remake como exemplo, percebemos que o game ganhou nuances estratégicas que o jogo original jamais poderia ter. A questão do alto nível de ação na batalhas acabou tornando os conflitos mais desafiadores, exigindo raciocínio rápido e domínio sobre as particularidades de cada personagem.

No formato de turnos, por mais que existisse a opção para deixar as coisas mais dinâmicas, as “barrinhas de tempo” davam maior tranquilidade para a execução das estratégias.

E jamais podemos nos esquecer de que o visual do remake é incrível. Sim, eu sei que um verdadeiro fã de RPGs não liga muito para isso, mas é inegável que a experiência visual conta muito, especialmente nas passagens regidas por aspectos emocionais.

O que Final Fantasy VII Remake representa é uma evolução, não uma “ocidentalização”. O jogo não é perfeito, mas, deixando o saudosismo de lado, o amado game original também não é.

O caso Tales of

Um dos pontos mais destacados pelos defensores da teoria de “ocidentalização dos JRPGs” é a substituição dos sistemas de combate em turnos. Entretanto, esse argumento cai por terra quando nos lembramos dos jogos da franquia Tales of.

Desde o primeiro game (Tales of Phantasia, de 1995), o sistema de combates da franquia é marcado por um alto nível de ação. Isso mesmo! Estamos falando de uma lenda da “era de ouro” que não seguiu um dos principais aspectos dos JRPGs.

Com o passar do tempo, os jogos da série Tales of foram sendo remodelados e seus sistemas de combate foram se tornando cada vez mais dinâmicos. E até me arrisco ao dizer que muitas ideias empregadas em Final Fantasy VII Remake guardam semelhanças com muitos Tales of.

Em síntese, se formos olhar apenas os sistemas de combate, para acusar os JRPGs de “ocidentalização”, estaremos cometendo uma injustiça e deixando de considerar alguns dos maiores RPGs japoneses da história.

O “estado atual” dos RPGs japoneses

Para encerrar toda a discussão acerca desse controverso processo de “ocidentalização”, resolvi apresentar abaixo cinco exemplos modernos que ficariam à altura de qualquer JRPG clássico.

Com essa seleção, acredito que ficará claro o fato de que os RPGs japoneses estão apenas evoluindo e encontrando um novo espaço nos “tempos modernos”. Continue comigo…

The Legend of Heroes: Trails do Cold Steel

JRPG

Apesar de já existir há muitos anos, a franquia The Legend of Heroes ganhou uma “nova vida” com a subsérie Trails of Cold Steel. A história dessa subsérie teve início em 2013, com The Legend of Heroes: Trails do Cold Steel e três outros títulos vieram após esse “clássico moderno”.

Todos os The Legend of Heroes: Trails do Cold Steel foram muito bem recebidos e ostentam avaliações extremamente positivas. Os jogos possuem um sistema de combates em turnos, mas exibem algumas opções que garantem maior mobilidade e dinamismo, além de outros subsistemas igualmente atrativos.

Code Vein

JRPG

Lançado em 2019, Code Vein é mais um “JRPG da nova geração” que merece grande destaque. O título conta com um visual belíssimo e uma ambientação bastante sombria, além de uma trama que o coloca à altura de grandes clássicos, mesmo sem seguir o padrão da “era de ouro”.

No que diz respeito às suas estruturas diferenciadas, Code Vein acaba remetendo aos jogos Souls-Like. E isso continua não sendo um processo de “ocidentalização”, já que a série Souls foi criada pela From Software, que é uma empresa japonesa. Ótimo jogo!

Persona 4 Golden

Por mais que Persona 4 Golden (de 2012) já seja um “clássico moderno”, o game ganhou uma versão para PC em 2020 e conseguiu arrebatar uma nova legião de players, mesmo não seguindo o padrão clássico à risca. O título foi muito bem recebido e mostra que os JRPGs mais novos têm grande apelo junto ao público.

Em linhas gerais, o Persona 4 Golden segue a ideia básica da franquia (batalhas com “espíritos” conhecidos como Personas), mas apresenta sistemas oriundos de outros tipos de jogos, como seu atrativo sistema de interação social. Ademais, as batalhas são bem dinâmicas.

Eiyuden Chronicle: Hundred Heroes

Para mostrar que o futuro ainda reserva grandes coisas para os fãs dos RPGs japoneses, cito agora o promissor Eiyuden Chronicle: Hundred Heroes. Esse game está previsto para ser lançado em 2022 e conseguiu chamar a atenção por ser um produto dos mesmos criadores da lendária franquia Suikoden.

Eiyuden Chronicle: Hundred Heroes é uma resposta poderosa a todos aqueles que ainda se agarram à ideia de “ocidentalização dos RPGs japoneses”. O game já mostrou que terá construções clássicas, mas não deixou de lado as inovações. Com toda a certeza, com esse game, o futuro dos JRPGs estará em boas mãos.

Sea of Stars

JRPG

Para arrematar, chamo a atenção para outra grande promessa: Sea of Stars. Com seu “ar retrô” e uma série de referências à “era de ouro dos RPGs”, o game já foi apontado por muitos como o grande sucessor espiritual de Chrono Trigger, o que já é um ponto muito positivo.

Curiosamente, Sea of Stars, mesmo parecendo ser a síntese de um bom JRPG, vem sendo desenvolvido por um estúdio canadense. Assim sendo, o título se apresenta como um exemplo irretocável de que o termo JRPG é um subgênero específico e não um indicativo do local em que o jogo foi criado.

JRPG: Tudo Precisa Evoluir!

Após essa bela viagem pelo gênero JRPG, só podemos concluir que o processo de “ocidentalização dos RPGs Japoneses” não existe. O que existe é a evolução natural desses jogos, com vistas a atender à demanda dos players mais modernos.

Como não poderia deixar de ser, essa evolução pode não ser muito bem recebida pelos mais saudosistas, mas, ela irá acontecer. Felizmente, para esses gamers, versões remaster e a transformação de grandes clássicos em jogos de celular têm acontecido com uma boa frequência.

Concluindo, os clássicos RPGs japoneses não estão em extinção, mas sim, em evolução. Quem é fã de um bom JRPG entenderá que a essência desses jogos é o que importa. Com isso em mente, a adequação à nova realidade não será um problema. Até mais…

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